A Terra dos Sonhos...


Tenho uma profunda admiração por quem deixa o seu país em busca de uma vida melhor. Tenho mesmo, não consigo sequer imaginar a valentia que é necessária!

Os motivos são sempre muitos e variados, cada um vive os seus e nenhum de nós, os que têm a sorte de permanecer, consegue sentir a dimensão dos que vão.

Os dias que antecedem a partida são de profunda saudade pelo que vai ficar, do que não podem transportar consigo na bagagem. O dia chega mais depressa do que se pode prever e assim, num piscar de olhos, sente-se na pele o abandono do país que nos viu nascer, crescer e nos abrigou por uma vida.

É mais do que uma casa e uma família que se deixa para trás... São as memórias, o quotidiano, o que tão bem conhecemos e amamos.

É mais do que uma mala o que se transporta... São as esperanças, a resiliência e o receio do desconhecido. Porque nunca se sabe ao certo o que se vai encontrar do outro lado do globo!

Eu, que tenho este espírito de cidadã do Mundo e adoro viajar, não sei se algum terei a coragem necessária para arrumar tudo e partir. Eu, que tenho sonhos maiores do que as linhas do meu destino e sempre ponho o futuro numa incógnita, não gostaria de ter de fazer essa escolha.

Eu, que tenho a frieza e a praticidade de sempre colocar em primeiro lugar as responsabilidades, mas que vibro com a possibilidade de as esquecer por uns dias e só desfrutar do lugares lindos que ainda tenho a visitar, não sei se compraria um bilhete de ida sem volta.

Mais do que a vontade de partir, tenho a alegria de voltar; voltar a casa, à minha cama, ao meu travesseiro, à minha comida, à minha língua, ao meu amado país - um pequenino Portugal, o cantinho à beira-mar plantado.

Esta é uma ode a todos aqueles que tiveram que emigrar em busca de uma vida melhor. Esta é uma vénia a todas as vítimas da crise, do crime, da idade e da falta de oportunidades. Esta é a minha admiração por todos vocês!

A Carla, que com o marido e dois filhos pequenos, teve que se desfazer dos seus bens - a clínica, a casa, os sapatos e os cristais... - e deixar a vida financeiramente confortável que tinha no Brasil, fugindo ao medo e à criminalidade; porque lhe era mais importante ver os meninos seguros e felizes, a brincarem na rua, sem receio de abrir o vidro do carro.

A Filipa, com quem tive a alegria de trabalhar e que hoje em dia, em busca de melhores oportunidades, está em Inglaterra, a lutar por um lugar ao sol no país dos dias cinzentos. Mesmo depois de uma década, não perdeu a doçura e o encanto que, um dia, nos aproximaram.

A Catarina, que viu a sua cidade natal desfazer-se em chamas e lá longe, sem poder fazer nada para ajudar, sofreu a perda e a preocupação comum a todos os portugueses, neste Verão.

A tia Paula, que apesar de já contar muitos anos no Luxemburgo, ainda tem a tristeza no olhar de quem daria tudo para poder voltar a casa, à família que ficou, ao país ameno do sol e do aconchego.

A D. Silvia, que conheci na Turquia e que, apesar de já estar na aposentadoria, me confessou o desejo de vir passar o resto da vida em Portugal. Abandonar tudo para fugir ao caos e à insegurança de São Paulo.

A minha mãe...
A minha mãe, que parte agora para uma nova vida do outro lado do hemisfério, onde os furacões se sucederam e mais longe do que a saudade pode alcançar. Não porque a vida aqui fosse má, mas porque também não era completa, depois da crise, do desemprego, da política.


A minha mãe, com quem nunca cortei o cordão umbilical e que ainda me chama de "pequenita", apesar dos meus trinta anos e a somar; que me ampara as quedas e me afaga os sonhos, porque eu nunca pedi muito mais do que me sinto preparada para conquistar, mas nem sempre foi fácil chegar lá.

A minha mãe, que como mãe, ninguém pode ocupar esse lugar... Só resta no peito um vazio preenchido com saudade, uma falta imensa e um nó na garganta, porque só percebemos verdadeiramente o quanto somos abençoados por termos quem temos, no momento em que nos faltam.

Não é o fim da linha; é o começo de uma nova jornada, para cada um de nós: os que vão e os que ficam. É a mudança e a habituação, cada uma na sua vez.

Quando nascemos, ninguém nos pode prometer que será um caminho fácil; quando crescemos, deixamos de confiar tudo ao destino;  depois de um certo amadurecimento, finalmente compreendemos que isto é a vida, a que temos. Cada um com a sua jornada, cada um com os seus próprios pesos às costas.

Esta é a minha admiração por quem muda, quem arrisca, quem vai sem previsão de voltar, em busca da terra do sonhos.

Esta é a minha manifestação de saudade pelos que, um dia talvez, irão voltar... Porque todos temos o Mundo à nossa espera, mas o bom filho a casa retorna! 🙏🌍